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| Centre dÉtude Nordiques (CNE) |
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| A caminho do lago de termocarso |
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| Recolha de amostras no lago de termocarso |
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Investigadores portugueses do IPIMAR envolvidos em estudos ambientais em lagos de termocarso no Árctico
Compreender o impacto das alterações climáticas ao nível do ciclo do carbono e contaminantes, em ecossistemas no Ártico/Sub-ártico assim como possíveis implicações nos ecossistemas do sul da Europa, foram os principais objectivos que levaram dois investigadores portugueses Dr. Marta Nogueira e Dr. João Canário a trocar o calor do nosso Portugal pelo frio cortante do Árctico, para trabalhar em colaboração com uma equipa Canadiana liderada pelo Dr. Laurier Poissant do Environment Canada numa expedição a Kuujjuarapik no Norte do Québec em Abril de 2008, tendo ficado alojados no Centre d'Études Nordiques (CEN).
As alterações climáticas, responsáveis pelo aquecimento global do nosso planeta têm desencadeado a fusão parcial dos solos permanentemente gelados (permafrost) onde actualmente, o carbono está preso sob a forma de matéria orgânica nos solos. Este processo de “derretimento” leva à formação de depressões cheias de água, chamadas “lagos” de termocarso, ricos em matéria orgânica dissolvida que: 1) libertam para a atmosfera dióxido de carbono (CO2) e metano (CH4), com impacto no ciclo do carbono e contribuindo para o aquecimento global; e, 2) levam a um incremento de carbono em rios e zonas costeiras adjacentes, sob a forma de carbono orgânico dissolvido (DOC), carbono inorgânico dissolvido (DIC) e carbono orgânico particulado (POC). Por outro lado estudos de química oceanográfica realizados na costa portuguesa, demonstram também a existência de camadas de água a determinadas profundidades cuja sua origem é o Árctico ou mesmo a Antárctida, o que evidência a interligação que na prática existe entre todos os ecossistemas da Terra.
Para alcançar estes objectivos amostras de neve, gelo, água e sedimentos foram colhidos num lago de termocarso nos arredores de Kuujjuarapik, para a determinação de carbono, nutrientes, pigmentos de clorofila e contaminantes. Medições de gases de dióxido de carbono e de metano também foram efectuadas, por forma a quantificar as potenciais emissões gasosas para a atmosfera.
A recolha das várias amostras revelou-se uma tarefa algo complicada, em especial, a recolha de água e de sedimentos, em virtude do lago estar coberto com uma camada de dois metros de neve e ainda com cerca de 40 cm de gelo. Após a perfuração da camada de gelo, a formação espontânea de bolhas foi observado na água, que resulta da libertação de metano, e um forte cheiro a compostos de enxofre preencheu o ar, característica típica de ambientes anaeróbicos (sem oxigénio), o que mais tarde foi comprovado através das análise químicas efectuadas às amostras. Foi verificado que existia metano acumulado no lago, debaixo da camada de gelo. A sua libertação, que ocorreu logo após o gelo derreter, representa mais um contributo para o aumento das emissões de gases de efeito de estufa para a atmosfera.
Os resultados obtidos apontam para uma nova realidade que ainda não consta nos actuais modelos globais sobre alterações climáticas, a emissão de gases de efeito de estufa resultantes da fusão dos solos permanentemente gelados e a subsequente transformação / libertação do carbono “preso” que se encontra nesses mesmos solos. Trata-se de carbono que foi depositado nas camadas superiores (0-1cm) à cerca de pelo menos 400 anos, que actualmente está a ser libertado para a atmosfera. Camadas mais profundas, até 2 metros, podem corresponder a carbono que se encontra aí depositado à mais de 4500 anos.